6.10.12

Avaliação da Edificação, Abertura e entrada em incêndio - Prédio INSS/2005/Brasília-DF - Escolhendo a entrada - Ventilação forçada - Abertura de porta - posicionamento de linhas de ataque e segurança - Como identificar sinais que indiquem risco de backdraft - Procedimentos de abertura - Porta ( sinais de saída de fumaça e ruídos de aspiração de ar, aquecimento e alterações na pintura, molhando de baixo para cima, aplicando pulso acima da porta, aplicando jato no interior e fechando a porta ) - Entrada - Teste de teto - Flashover - Proteção e monitoração da rota de fuga - Isolar áreas não atingidas e posicionar escadas - Aplicação de jato neblinado contínuo


Abertura e entrada em incêndio

“A abertura mais importante de um incêndio é aquela por onde devem entrar os bombeiros”.

Abrir uma porta para a entrada é um momento crítico no qual os bombeiros se expõem às condições internas do cômodo incendiado.

Por isso, toda e qualquer abertura (interna ou externa) demanda cuidados para evitar risco à vida dos bombeiros e de eventuais vítimas.

Além de cessar a proteção oferecida pelo isolamento dos ambientes, a abertura do cômodo do foco aumenta a velocidade da combustão por injetar ar no ambiente.


Para entrar na edificação sinistrada, é necessário:

• avaliar o incêndio e a edificação;

• escolher a(s) abertura(s) a ser (em) feita(s);

• fazer a abertura dentro da técnica adotada;

• entrar na edificação pela abertura escolhida.


Avaliação do incêndio e da edificação

Antes de iniciar qualquer ação em um ambiente sinistrado, deve-se,primeiramente, fazer o reconhecimento e a avaliação das condições do local. Incêndios em edificações tendem a acumular fumaça em seu interior. Se a abordagem for feita de forma errada, o risco de os bombeiros serem surpreendidos por um comportamento extremo do fogo é grande e deve ser evitado.

 Figura 153 - Incêndio no prédio do INSS, em Brasilia-DF — 2005


A avaliação para abertura e entrada deve levar em consideração: 

- a existência de vítimas e sua possível localização; 

- as condições de segurança do local; 

- as características da edificação (tipo de material construtivo, o número de pavimentos, tipo de teto e tipo de piso, etc.); 

- a localização das saídas alternativas (janelas, etc.), dos obstáculos existentes (grades, cadeados, etc.) e as características do incêndio (sinais indicativos de fenômenos extremos do fogo, a provável localização do foco, etc.). 

Estas informações são importantes para facilitar as ações de resgate, de progressão e combate ao fogo, a orientação no interior da edificação e a localização de rota de fuga alternativa, se necessário.


O fenômeno do flashover não ocorre enquanto o cômodo atingido pelo incêndio estiver fechado e sem qualquer abertura que permita a entrada de ar.

Como regra geral, na avaliação do sinistro, os bombeiros a deparar-se com portas deverão fechá-las, quando se tratar de ambientes preservados, com ou sem vítimas. Entretanto nos ambientes incendiados, o procedimento varia: se houver vítimas, a porta deverá permanecer aberta.

Se não houver vítimas e a porta estiver inicialmente aberta, não deverá ser fechada; e com a porta inicialmente fechada, a dupla de bombeiros deverá fechá-la, após entrar com os procedimentos corretos de abertura de porta. Evita-se fechar totalmente a porta para não travá-la.

A porta deve permanecer aberta se houver ocupantes saindo da edificação.


Escolhendo a entrada

Sempre que possível, a porta para entrada de bombeiros deve ser escolhida na área não atingida pelas chamas e entre o foco do incêndio e as vítimas. Essa entrada proporcionará aos bombeiros uma posição adequada para a proteção de vítimas, da área ainda não atingida e para o ataque ao fogo de dentro para fora da edificação.

 Figura 154 - A melhor entrada para os bombeiros é entre as vítimas e o foco

Se estiver sendo utilizada ventilação forçada por ventiladores, a entrada dos bombeiros dar-se-á, obrigatoriamente, pela entrada de ar feita para o ventilador, o que garantirá uma temperatura mais amena e maior visibilidade no ambiente.

 Figura 155 - Entrada com uso de ventilação forçada


Fazendo a abertura de porta

A zona próxima da porta a ser aberta é uma área de risco, por isso, deve ser evitada a presença de pessoas que não estejam envolvidas diretamente nesta ação, por ser esta a saída natural da fumaça liberada. Outras áreas de risco, que devem ser evitadas durante o procedimento de abertura, são as escadas não protegidas e os pavimentos superiores, devido ao risco de ignição de fumaça nestes ambientes.


Posicionar as linhas de ataque e de segurança

Preparar linhas de mangueiras – Realizar a armação de linhas deixando um seio de mangueira suficiente para chegar ao foco do incêndio. As mangueiras devem estar devidamente pressurizadas para o ataque e para a segurança ou apoio.

Posicionar a guarnição – O chefe e o ajudante, totalmente equipados, se posicionam de joelhos, cada um de um lado da porta. Se a porta abrir para dentro o chefe se posicionará do lado da dobradiça. Se abrir para fora, ele se posicionará do lado da maçaneta. A linha de apoio se posicionará, também de joelhos, sempre atrás do ajudante da linha de ataque, enquanto o chefe da guarnição, também protegido pela parede e de joelhos, se posicionará próximo ao chefe da linha de ataque.

Regular o esguicho – O chefe porta o esguicho, já regulado para vazão de 30 GPM e jato compacto e o ajudante inicia a identificação dos sinais que indiquem risco de backdraft.


Identificar na porta sinais que indiquem risco de backdraft

Fumaça saindo sob pressão pelas frestas e ruídos de aspiração de ar – Deve-se observar em torno da porta para identificar se está saindo fumaça sob pressão e tentar ouvir ruídos de aspiração de ar para dentro do local. O risco é maior se a fumaça estiver saindo por baixo da porta, pois indica que todo o ambiente está tomado por ela. Neste caso o ideal é realizar uma ventilação vertical antes da abertura.

Em algumas situações, a chuva, a existência de laje, redes elétricas ou outros fatores podem tornar a abertura no telhado muito difícil, perigosa ou demorada. Dessa forma, a abertura deve ser feita no ponto mais alto possível do ambiente (fig. 156).

Entretanto, se não houver uma abertura alta o suficiente para evitar um backdraft, será necessário realizar a técnica de abertura e entrada pela porta.

 Figura 156 – Exemplos de procedimentos de abertura

• Alterações na pintura da porta – A pintura da porta danifica-se facilmente pela ação do calor, pois ela muda a coloração e começa a se deformar. Outra forma de identificar esta alteração na porta é tateá-la com a mão, usando luvas adequadas, para detectar outras deformidades como tinta amolecida, grudando e esfacelando com ao toque da mão.

• Aquecimento da porta – O aquecimento da porta é outro fator que pode ser diagnosticado pelo toque da mão. Normalmente a parte inferior da porta estará menos aquecida que a parte superior, por isso, deve-se realizar esta verificação iniciando da extremidade inferior da porta. Recomenda-se utilizar luvas de combate a incêndio e realizar o toque pouco a pouco, primeiro com as extremidades dos dedos e somente depois com os dedos e a palma da mão para diminuir, ao máximo, o risco de queimadura.

• Ausência dos sinais de fenômenos extremos na porta – É importante ressaltar que deve-se observar outros sinais de fenômenos extremos, pois pode ocorrer a ausência destes na porta se a mesma for confeccionada com materiais resistentes e retardantes contra fogo, ou seja, ausência de sinais na porta não significa ausência de fenômenos extremos.

OBSERVAÇÃO: Na verificação dos sinais e nos procedimentos a seguir, é importante uma boa comunicação entre toda a equipe (linha de ataque, linha de apoio e chefe de guarnição). Cada sinal observado deve ser comunicado ao outro e a abertura deve ser divulgada e coordenada.

 Figura 157 - Observando sinais de saída de fumaça e ruídos de aspiração de ar

Figura 158 - Verificando aquecimento da porta e alterações na pintura


Preparar para abertura e entrada

• Molhar a porta de baixo para cima – Utilizando o jato mole, molha-se a porta, a estrutura em torno dela e a maçaneta para resfriá-los, para verificar o ponto onde está mais aquecida e identificar a altura da fumaça no interior do ambiente (por isso deve-se molhar de baixo para cima);

 Figura 159 - Molhando a porta de baixo para cima

• Verificar se a porta não está trancada - Se estiver, fazer o arrombamento utilizando o material adequado. Não é aconselhável arrombar a porta abruptamente, por dois motivos: alguma vítima pode encontrar-se desmaiada atrás desta; e pode ocorrer a entrada indesejada de ar no ambiente, devido à abertura sem controle.

• Controlar a abertura - Para arrombar a porta e controlar a sua abertura abrupta, pode-se amarrá-la pelo trinco com uma corda ou cordelete. Isso é particularmente importante nas portas que abrem para dentro, que são as mais comuns. Desse modo a porta fica destrancada e pronta para ser aberta. Durante o procedimento de arrombamento a porta deve ser mantida resfriada.

• Modificar a regulagem do jato – Regular o jato para 35° de amplitude, permanecendo com a mesma vazão de 30 GPM.

• Aplicar jatos atomizados acima da porta – Ainda com a porta fechada, o chefe da linha de ataque deve aplicar dois jatos, de menos de um segundo cada, acima da porta, o primeiro do seu lado, praticamente acima de sua cabeça, e o segundo do lado do ajudante. Esse procedimento é capaz de resfriar a fumaça acumulada, que irá sair com a abertura da porta. A fumaça quente será liberada num local úmido, dentro de uma “nuvem”, dificultando a ocorrência de backdraft ou ignição de fumaça.

 Figura 160 - Aplicando pulso acima da porta

Abrir a porta, aplicar jatos no interior e fechar a porta Imediatamente após o segundo jato acima da porta, o ajudante faz uma pequena abertura na porta, o suficiente para a passagem do jato de água, enquanto o chefe da linha aplica um pulso, de 2 segundos, dentro do ambiente.

Quando o chefe finalizar o jato, o ajudante fecha a porta imediatamente.

 Figura 161 - Aplicando jato no interior e fechando a porta


Definir por continuar a estabilização ou pelo inicio da progressão

• Observar as condições do incêndio – Nesta primeira abertura deve-se observar se existem chamas visíveis, acúmulo de fumaça, se há sinais visuais ou audíveis de que possa haver vítimas, sinais de colapso de estruturas ou quedas de forros. As condições observadas devem ser comunicadas ao comandante de socorro.

• Repetir a técnica se o ambiente ainda não oferecer segurança – Se a água lançada no ambiente evaporar, se durante a abertura e a aplicação do jato for observada saída de fumaça quente ou chamas na parte superior ou ainda aspiração violenta em baixo, o ambiente estará a uma temperatura muito alta.

Neste caso, é necessário repetir a técnica de abertura por mais duas vezes ou até a estabilização do ambiente, possibilitando a entrada e a progressão dos bombeiros. Ou seja, aplicar jatos acima da porta, abri-la, aplicar 1 pulso de jato atomizado no interior e fechar a porta, aguardando, entre uma abertura e outra, um tempo de 5 e 8 segundos.4

• Realizar a entrada se o ambiente oferecer segurança – Se a água lançada cai ou atinge o teto, então a temperatura é moderada.

Portanto, não será necessário estabilizar a fumaça, e a aplicação da água será restrita ao foco. Neste caso, procede-se a entrada no ambiente.


Entrada

• A dupla de ataque realiza a entrada – O ajudante se posiciona na mangueira do lado oposto ao chefe e fecha a porta, enquanto o chefe aplica, se necessário, dois pulsos de um segundo cada e depois regula o esguicho para 60° de amplitude do jato. A dupla realiza a progressão adequada, até o local do foco.

 Figura 162 – Momento da entrada no ambiente

• Portas e janelas devem permanecer fechadas – Enquanto não for estabelecida uma forma eficiente para o escoamento da fumaça, as portas e janelas devem permanecer fechadas, inclusive quando os bombeiros estiverem no interior efetuando a progressão em direção ao foco de incêndio, assim evita-se uma possível ignição da fumaça provocada pela entrada de ar vinda por trás deles.

• Entrar somente o pessoal necessário – Apenas o pessoal necessário para o combate deve entrar no ambiente, totalmente protegido por EPI/EPR (exceto quando da utilização da técnica de proteção de rota de fuga). A entrada de várias pessoas dificulta a saída em caso de perigo e expõe a guarnição desnecessariamente. Outro bombeiro, o qual pode ser o próprio chefe da guarnição de combate a incêndio, permanece à porta, controlando o avanço ou recuo da mangueira. Esse combatente também estará protegido por EPI/EPR.

• Teste de teto – Já dentro do ambiente é útil fazer o teste do teto, que consiste em lançar para o alto um pulso de jato atomizado,  observando se a água cai ou evapora. Se as partículas de água caem é sinal de que o local não está superaquecido e pode-se continuar a progressão. A evaporação da água indica que o local está com gases superaquecidos e a situação é de risco. Deve-se então aplicar pulsos de jato atomizado até a estabilização do ambiente, para que possam avançar e chegar com segurança até o foco principal do incêndio.

Figura 163 – Teste de teto


O teste pode ser repetido a cada dois metros, em média, se houver dúvida quanto à segurança para a progressão.

Não aplicar água em excesso – Deve-se evitar a aplicação de jatos em excesso, quando a temperatura estiver baixa e não ocorrer a vaporização dentro da fumaça.

Avaliação dentro do ambiente – Se houver forro no ambiente, este é o momento de verificar as condições acima dele. Se houver fumaça ou fogo acima do forro o combate deve ser realizado de fora do ambiente.

Os bombeiros também devem estar atentos para sinais de desabamento no ambiente, tais como: trincas; rachaduras; quedas de materiais, paredes, teto e piso falso; desabamentos anteriores, etc.


Abertura de portas internas ou janelas – A abertura de uma porta interna ou janela deve ser bem avaliada. Esta ação poderá causar uma ventilação indesejada no local, levando a um aquecimento rápido e até mesmo a um flashover. Também poderá ocasionar propagação do incêndio para áreas até então não atingidas e expor vítimas que ainda podem estar em segurança nestes locais.

Combate ao foco – Localizado o foco, faz-se o combate ou o seu confinamento, conforme a tática adotada.


Proteção da Rota de Fuga

Quando o combate exigir uma entrada demorada (se o fogo está longe da entrada, por exemplo), pode ser necessário proteger uma rota dentro da edificação para a saída emergencial. Isso se faz com equipes de apoio que, igualmente equipadas com EPI e linhas de mangueira, adotam os procedimentos possíveis, dentre os seguintes:


Monitoração da rota de fuga

Posicionar linhas de mangueira na entrada e, se necessário, ao longo da rota adotada pela linha de ataque para chegar ao objetivo.

Essas linhas fazem testes do teto, verificando a temperatura e, se necessário, aplicando pulsos de jato atomizado nas paredes e na fumaça, para evitar a inflamação.

As linhas de apoio deverão se posicionar de acordo com a determinação do chefe da guarnição, mantendo contato via rádio ou visual com a linha de ataque, comunicando-lhe qualquer mudança nas condições do incêndio que possa colocá-la em risco.


Isolar áreas não atingidas e posicionar escadas

As linhas de apoio, se possível, auxiliam no confinamento do incêndio, fechando portas e janelas de áreas não atingidas pelo fogo.

Também orientam quanto ao posicionamento de escadas nas janelas (se o incêndio for em edificação alta), e permanecem a postos para eventual necessidade de resgate de uma vítima encontrada ou de bombeiro acidentado.


Aplicação de jato neblinado contínuo

Durante o resgate de uma vítima ou bombeiro, se o ambiente começa a degradar rapidamente, havendo risco imediato à vida, as linhas de apoio devem formar uma barreira de água, aplicando sobre a linha vulnerável um jato neblinado contínuo, protegendo-a durante a retirada.

O jato neblinado protege apenas enquanto dura a sua aplicação e precisa ser mantido até a saída dos bombeiros da edificação, por isso, é vital o fornecimento ininterrupto de água nas linhas de ataque e apoio.

Este recurso só deve ser utilizado para as situações em que a necessidade de salvar uma vida, seja do bombeiro ou da vítima, deixa em segundo plano a preservação da propriedade e mesmo a estabilização do incêndio.

Após a utilização desta técnica o bombeiro não deve retornar molhado à área do incêndio.



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