Como as cobras se defendem?
Estratégias
de defesa podem definir o limite entre a vida e a morte, considerando que a
floresta está repleta de predadores à espreita, prontos para devorar suas
presas.
Não
por serem perversos, mas apenas por que precisam se alimentar.
Quanto
maior a capacidade de um animal se defender, mais alta será a chance de
sobrevivência a um ataque de predador.
Ao
longo de sua história evolutiva, as cobras desenvolveram muitas estratégias
para evitar o ataque de predadores.
Muitas
espécies podem utilizar diferentes estratégias comportamentais ou químicas, com
o propósito de tentar convencer o predador a desistir do ataque.
Muitas
espécies de cobras possuem coloração bastante críptica, o que significa que
podem se camuflar muito bem no ambiente que ocupam.
Se
você já caminhou por uma trilha dentro de uma área de floresta, provavelmente
passou por uma cobra e não a viu.
Espécies
que utilizam principalmente o solo, como a Jararaca-nariguda Bothrocophias
hyoprora, possuem cores e desenhos no corpo que as tornam facilmente
confundíveis com folhas em decomposição no chão da floresta (Figura 20).
Algumas
espécies arborícolas, como a Cobra-cipó Oxybelis aeneus, são muito semelhantes
a galhos (Figura 21), é preciso olhar com muito cuidado para encontrá-las.
Essa
condição as protege contra o ataque de predadores que se orientam visualmente,
como aves, e também facilita a caça, uma vez que as presas terão mais
dificuldade para perceber a presença da cobra.
Figura 20 - A Jararaca-nariguda Bothrocophias hyoprora se camufla muito bem sobre as folhas em decomposição no solo da floresta.
Figura
21 -A camuflagem é uma estratégia de defesa muito eficiente para as cobras,
como a Cobra-cipó Oxybelis aeneus que é facilmente confundida com galhos de
árvores.
Diferente
da camuflagem, as espécies que utilizam mimetismo não evitam serem vistas.
Mimetismo
é uma estratégia de defesa em que espécies inofensivas se assemelham a espécies
venenosas ou tóxicas, na coloração, padrões de desenhos do corpo, e em alguns
casos no comportamento defensivo.
Aparentemente
o mimetismo é uma ótima estratégia defensiva, porque pode manter predadores
afastados ao identificarem uma presa como potencialmente perigosa.
O
exemplo mais conhecido de relacionamento mimético em cobras ocorre entre as
Corais verdadeiras e falsas, onde espécies não peçonhentas são beneficiadas
pela semelhança com espécies peçonhentas.
A
semelhança ocorre tanto na coloração e padrões de desenho do corpo (sequências
de anéis pretos, vermelhos, brancos e amarelos) como também no comportamento.
Esse
padrão serve para advertir os predadores de que se trata de uma cobra
peçonhenta (Figura 22).
Na
região de Manaus a maioria das Cobras-corais verdadeiras e falsas é ativa
durante o dia e à noite.
Mas
para espécies exclusivamente noturnas, não sabemos exatamente como o mimetismo
pode ser eficiente, porque embora muitos predadores consigam identificar os
anéis coloridos como sinal de alerta, na escuridão isso não é possível.
Contudo,
muitos predadores de cobras, como Quatis, procuram presas noturnas durante o
dia, em abrigos como buracos ou sob folhas. Encontrar algo semelhante a uma
Cobra-coral provavelmente assusta o predador, de modo que a cobra tem tempo
suficiente para fugir.
A
principal diferença entre as Corais verdadeiras e falsas pode ser observada nos
dentes.
As
Corais verdadeiras possuem um par de presas inoculadoras de veneno localizadas
na região anterior da boca.
Em
algumas Falsas-corais as presas inoculadoras de veneno são ausentes, como em
Anilius scytale e Atractus latifrons, ou presentes na região posterior da boca,
como em espécies de Oxyrhopus e Erythrolamprus aesculapii.
Mas
as espécies que possuem dentes de veneno geralmente são pouco agressivas, e o
veneno geralmente é pouco eficiente em humanos.
Contudo,
existem exceções, como as cobras do gênero Philodryas (não possuem padrão de
coloração coral), que podem causar envenenamento grave em humanos,
especialmente em crianças.
De
qualquer forma, olhar os dentes de uma Cobra-coral para identificar se é
verdadeira ou falsa pode ser uma tarefa perigosa.
Figura 22 - No mimetismo espécies inofensivas são muito semelhantes a espécies peçonhentas ou tóxicas, para evitar predadores. O exemplo mais conhecido de mimetismo em cobras ocorre entre as Cobras-corais verdadeiras, como Micrurus albifrons (A), e falsas, como Erythrolamprus aesculapii (B).
Em
diversos casos a diferenciação e identificação entre as espécies peçonhentas e
não peçonhentas não é fácil.
Neste
livro apresentaremos algumas diferenças específicas para Cobras-corais da
região de Manaus, que podem auxiliar na identificação e diferenciação de
espécies de Corais verdadeiras e falsas.
Mas,
caso você encontre uma Cobra-coral e tenha alguma dúvida se é verdadeira ou
falsa, a melhor coisa a fazer é não mexer com ela.
Todas
as espécies de cobras possuem um par de glândulas na base da cauda, que liberam
substâncias químicas na presença de um predador.
Em
muitas espécies, como Dipsas aff. catesbyi, Leptodeira annulata e Siphlophis
compressus, essas substâncias são fétidas de modo similar ao cheiro de animais
mortos em estado avançado de putrefação.
Alguns
predadores generalistas devem evitar comer carniça, devido à probabilidade de
ingerirem bactérias causadoras de doenças, mas não existem estudos que mostram
que predadores sejam detidos por essas secreções.
De
qualquer forma, algumas espécies exibem um comportamento defensivo em que se
fingem de mortas, como a Falsa-jararaca Xenodon rabdocephalus.
Outras
espécies utilizam a intimidação como estratégia defensiva (Figura 23),
especialmente se forem acuadas ou
ameaçadas.
Inflar
o corpo e ampliar a cabeça para parecerem maiores, vibrar agressivamente a
cauda, emitir sons agressivos (como a Jiboia, Boa constrictor), desferir botes
e morder são comportamentos para intimidar o predador.
Autotomia
é um comportamento defensivo no qual um animal perde parte ou partes do próprio
corpo, geralmente a cauda.
Figura
23 - Algumas espécies de cobras utilizam a intimidação como uma estratégia de
defesa, como esta Cobra-cipó Oxybelis aeneus.
Isso
é bastante comum em lagartos, mas raro em cobras. No entanto, foi observado em
indivíduos das Cobras-cipó Dendrophidion dendrophis e Drymoluber dichrous.
A
parte amputada da cauda se movimenta por espasmos musculares durante alguns
minutos após a ruptura.
Esse
comportamento provavelmente atrai a atenção do predador enquanto a cobra tem
oportunidade de fugir.
De
forma diferente de muitos grupos de lagartos, as cobras não regeneram a cauda
amputada.
Na
tabela 3 apresentamos os principais comportamentos defensivos exibidos pelas
cobras na região de Manaus.
Alguns
comportamentos são bastante frequentes entre as espécies, como a liberação de
uma secreção fétida pela cloaca, mas algumas espécies exibem comportamentos
bastante especializados, como a Falsa-jararaca Xenodon rabdocephalus, capaz de
simular a própria morte.
Tabela
3. Comportamentos defensivos exibidos pelas cobras na região de Manaus.